quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Edelweiss

A moça entrou na maison encantada com os vestidos de casamento tão cobiçados de Sissi Maldonado. Um perfume floral feminino dançava pelos ares do local e, por sorte, não havia qualquer atendente para estragar a linda experiência provocada pelo que se via e se sentia, no olfato e na pele, pois as noivas não podiam privar-se dos arrepios romanceados da escolha do traje. O segredo da marca, todos sabiam, era que os vestidos tinham desenhos e cortes simples, mas traziam detalhes minuciosos, bordados finíssimos e pedrarias raras. Nos acabamentos estavam os detalhes, feitos com o mesmo zelo do fronte ao barrado, por exemplo, cuja única função era derramar-se pelo chão. Os bordados eram a materialização da perfeição: bem alinhavados, pomposos, exuberantes, certos de que permaneceriam vivos anos e anos na memória de toda gente. Eram, porém, as pedrarias que caracterizavam as criações da velha Maldonado. Nada menos esplêndido e valioso que pérolas turquesas e nada menos vivaz que opalas delicadamente lapidadas poderia adornar seus vestidos. Sissi Maldonado era um ditadora da elegância, uma senhora e uma escrava de seus próprios desejos. Na maison, deslumbrada com tal paraíso de vaidades, a moça teve a convicção de que gastaria o que fosse para ter um pedacinho daquele luxo eterno para si. Possivelmente investiria cinco ou seis vezes mais que escolhendo um vestido em outra loja, mas calar suas vontades não estava nos planos. Um vestido de Sissi Maldonado era como uma joia de beleza impossível e ardente, enterrada em águas profundas e que ao ser encontrada brilharia convicta de sua alma rebelde e jovem. Havia de valer a pena. Não era tanto pelo desejo de trazer sobre si o mais apropriado e belo para o dia do casamento, não era pelas obrigações formais do festejo, mas pelo simples desejo de atestar que dentro de um daqueles vestidos caríssimos estaria uma personalidade adorável, uma mulher de gosto apurado, um exemplo do desvario sadio. A moça olhou tudo sem pressa, chamou uma das atendentes e fez a compra. Edelweiss era o nome do traje escolhido.

domingo, 19 de junho de 2011

A dor que se vê

Queria poder dizer que infeliz me arrependo das coisas que não fiz, mas não posso. Seria a mentira mais deslavada que compartilharia na vida. Primeiro porque acredito que os atos consumados sejam os que causam algum tipo de ressentimento, do mais leve ao mais mortífero e amargo, uma vez que não possam ser apagados ou desfeitos. E segundo porque se houver qualquer coisa a ser feita durante minha existência, por mais grandiosa e inatingível que possa parecer, nada me faz crer que não possa de fato ser feita. Por isso julgo ingênua a ideia do arrepender-se pelas coisas não materializadas. Que fosse sentir arrependimento pelas ações que impediram alguém de fazer ou conquistar algo, vá lá, mas sentir-se ressentido com aquilo que ainda não aconteceu parece fazer tanto sentido quanto chorar por não ter aceitado uma fatia de bolo mais no casamento do primo ou torturar-se por não ter comprado o vestido Dior em liquidação na viagem a New York. Palavras de carinho não ditas podem ser ditas, sabores não degustados podem ser degustados, passos não dados podem ser dados. Nem aqueles que deixaram de dizer algo a um ente querido que se foi e que se martirizam porque não o fizeram, deveriam alimentar em si qualquer arrependimento. O simples ato de refletir internamente, dizer para si mesmo aquilo que deveria ter sido dito, parece uma saída mais lógica e humana para a situação. A vida é, por seus próprios caprichos, dolorosa e complexa o suficiente para ser povoada por pensamentos severos, banhados em arrependimentos desnecessários. Antes me vejo perdendo noites de sono por aquilo que fiz ou disse, transformando de algum modo a vida de uma pessoa em algo menos valioso, que lamentando por aquilo que não aconteceu, por algo que talvez nem valha o esforço de ser executado.

sábado, 21 de maio de 2011

Parcialmente divinos: O dia sétimo

Nos dias de sábado, Teo Arcanjos organizava em sua residência um encontro para discussão crítica da Bíblia. Seus convites aos participantes eram realizados discretamente, geralmente direcionados a crentes fervorosos de diversas vertentes do cristianismo. No pequeno cartão azul que entregava a homens, mulheres, velhos e jovens, podia-se ler impresso em letras prateadas o sobrenome "Arcanjos" e provocadoras mensagens como: "Teria Cristo realmente multiplicado peixes?" e "Talvez Maria fosse tão virgem quanto qualquer outra mulher grávida". Desconfiadas, as pessoas apanhavam aquele pequeno pedaço de papel cartonado e, na maioria das vezes, lançavam um olhar reprovador e amargo para Teo. Em alguns casos, o cartão era sumariamente amassado e, num gesto, que se diria nada religioso – e nada educado –, atirado ao chão. O rapaz estava acostumado, porém. Era difícil encontrar pessoas dispostas e entender e pôr em dúvida as palavras contidas no livro do Senhor, um livro que tivera sido escrito pelos homens. Quando um daqueles devotos, ao receber o cartão azul de Arcanjos, demonstrava algum interesse em sua proposta, ele aproveitava para falar mais sobre os encontros e colocar a opinião de grandes homens como Mark Twain, que considerava a Bíblia uma biografia condenável. Havia gente disposta a entender linha a linha o que desejava dizer o Livro, felizmente. Teo Arcanjos sabia que, apesar dos pesares, para a ira de toda gente retrógrada, sua lindíssima residência estava sempre bem servida de fiéis questionadores, dispostos a crer sem abdicar de uma porção – ainda que modesta – de razão e coerência.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sem sobremesa

Na cidadezinha do interior, a mãe, o pai e os três filhos almoçavam silenciosamente. A toalha da mesa, alva, rendada, acariciava cada um dos membros da família embalada pelo vento, de algum modo desconfortável com seu gracejo despropositado. Havia, como de costume, um tom de monotonia ditatorial presente nos momentos de refeição daquela casa, o que impunha certos comportamentos rígidos. Ninguém falava qualquer palavra, por exemplo; talheres eram manuseados com precisão exagerada para evitar ruídos de qualquer tipo, a comida era servida pontualmente às doze e quinze, nenhum líquido era bebido enquanto se comia, ninguém se levantava da mesa até que todos tivessem terminado suas refeições. Quando os pratos e talheres vibraram estranhamente durante o almoço daquele dia, porém, todos levantaram suas cabeças e olharam em direção à janela da sala. O pai fez um discreto comentário, sugerindo que todos voltassem a comer, mas nem bem terminou de falar e a mesa voltou a tremer e pequenos ruídos ecoaram de todos os cantos da casa. A mãe esboçou um semblante de falsa tranquilidade, apertando os talheres com mais força que o necessário. De repente outro tremor, e outro. O evento se repetiu muitas vezes, aumentando gradativamente em intensidade. Um prato caiu da mesa, partiu-se e espalhou pelo chão a comida que tinha sobre si. Um garfo trepidou de um lado para o outro e caiu sobre o colo de um dos filhos. O vaso de flores ficou no limite de se quebrar, sendo amparado pelas mãos do pai que, visivelmente consternado, depositou o arranjo de volta ao centro da mesa e se deslocou até a janela. A mãe e os três filhos logo fizeram o mesmo, caminhando ritmados pelos tremores misteriosos. Reunidos, os cinco membros da família tiveram uma visão aterrorizante: milhares de milhões de cavalos negros montados por criaturas monstruosas vinham em direção à casa. As criaturas podiam ser descritas como figuras cadavéricas, com barbas e cabelos desgrenhados e secos, com chifres compridos nas cabeças e asas translúcidas. Aquilo provavelmente representava o apocalipse. A mãe fechou a vidraça da janela e as cortinas. Os filhos olharam para o estado da casa: objetos caídos, móveis deslocados, os pratos e os talheres na mesa de jantar desordenados. Voltaram-se para os pais. De repente a escuridão, mais tremores, ruídos de vidraças explodindo e, logo, o mais pleno silêncio. Súbito as luzes voltaram e todos os tremores cessaram. Em meio a talheres e estilhaços de vidro, a família: violada, desorientada, em completo temor.

domingo, 15 de maio de 2011

Quem foi, afinal, Catalina Branco?

— Eis uma boa pergunta. Realmente não sei. Nunca consegui saber quem era ela realmente, ou nunca quis sabê-lo. Como uma tela vazia, parecia aguardar que lhe pintassem alguma coisa, que lhe dissessem quem ser, o que representar.
— O senhor acredita ter feito esse trabalho?
— O de pintar Catalina Branco? Sem dúvida que sim. Olhei para ela, uma atriz comum, insegura, e lembrei de mim mesmo na juventude, quando esperava que alguém tomasse a iniciativa de me mostrar qual era o caminho a seguir. Senti-me na obrigação de ajudá-la, de lhe indicar uma direção.
— Como se conheceram?
— Há quatro anos ela surgiu em minha clínica para retirar um sinal de nascença, uma bobagem qualquer dessas. Veio até minha sala de consultas com os olhos perdidos, chorosos, queixando-se da dificuldade em conseguir um bom papel e consolidar sua carreira artística. Logo percebi que ela se encaixava nos meus planos.
— Então, havia planos anteriores?
— Havia, mas não especificamente para Catalina. Naquele momento eu concluía os estudos de uma nova técnica em cirurgia facial, algo realmente espantoso. Precisava encontrar um paciente que se dispusesse a ser minha cobaia — ainda que eu não tratasse as coisas nesses termos. Depois, claro, surgiu o sentimento de obrigação para com aquela moça. Como disse, reconheci minha juventude nela.
— Em que momento Catalina Branco soube de seus planos?
— Por completo, apenas após as intervenções cirúrgicas. No consultório apenas disse-lhe que podia transformá-la em uma estrela, que havia algo belo a ser desenhado nela, em sua carreira artística.
— E qual foi a reação dela?
— Ela se entregou a mim. Disse que eu podia fazer dela o que desejasse, que daria um jeito para me pagar.
— E quanto o senhor cobrou pelas cirurgias?
— Não envolvi dinheiro nisso. Apenas paixão.
(Pausa).
— O senhor foi movido por uma paixão?
— Tenho a plena certeza que sim. Somos movidos por paixões a todo instante. Paixões, vaidade, luxúria. Naquele momento me senti o próprio Deus, podendo criar de acordo com meus caprichos mais secretos.
— Quanto tempo levou para concluir o novo rosto de Catalina Branco? Como foram os procedimentos?
— Comecei com uma pesquisa densa. Selecionei fotos e vídeos das grandes divas do cinema e do teatro e desenhei um rosto que fosse completamente único, que se afastasse de todos os padrões. Queria criar uma estrela inesquecível e incomparável. Dali a duas semanas, reuni todos os meus estudos, alguns membros de minha equipe e, levando Catalina, viajei para os Estados Unidos. Os detalhes dos procedimentos vão morrer comigo. Fiz praticamente tudo sozinho na sala cirúrgica. Foi um momento glorioso.
— Por que as cirurgias foram realizadas nos Estados Unidos?
— Primeiro porque minha clínica nos Estados Unidos contava com todos os aparatos médicos necessários para as intervenções que planejei. E segundo porque era preciso "matar" Leila dos Santos e fazer nascer Catalina Branco. Assim, viajar para longe do Brasil foi a saída mais sensata. Nós podíamos criar qualquer história para ela.
— No que consistiu essa "morte" de Leila dos Santos?
— Na mudança de todos os documentos da atriz, de Leila para Catalina, na construção de sua nova aparência física e na tomada de aulas de comportamento.
— Aulas de comportamento?
— Sim. Três meses após as intervenções cirúrgicas, já tendo minha equipe retornado ao Brasil, ficamos Catalina e eu nos Estados Unidos, em minha casa em Nova York para estas aulas. Contactei a professora de artes cênicas Virginia Smithson, uma amiga de meus pais, e pedi a ela que ensinasse Catalina Branco a se comportar como uma verdadeira estrela. Eu desejava que Catalina tivesse completo domínio sobre seu corpo, seus gestos e sua fala.
(Pausa).
— O senhor acredita que se Catalina Branco não tivesse algum talento inato, poderia ela ter se tornado uma artista tão grandiosa?
— Acredito que a beleza determine quase tudo em nossas vidas. Com Catalina não foi diferente. Com a nova aparência, aos poucos ela percebeu que tinha algo de divino em si, que podia expor seus sentimentos mais profundos. Ela sempre foi uma atriz completa, apenas não enxergava isso.
— O que verdadeiramente Catalina significava para o senhor?
— Muita coisa. Eu podia ter parado assim que as mudanças em sua aparência tivessem sido finalizadas, mas era preciso transformar também seu comportamento, seus gestos, sua fala. Tinha me afeiçoado imensamente a ela e queria vê-la feliz. Sentia que lhe faltava uma generosa dose de amor próprio.
— Pode-se dizer que sua paixão pela atriz se transformou em algo maior?
— Sim. No começo eu nutria por ela um tênue sentimento paterno que aos poucos foi se convertendo no amor em sua forma mais potente.
— E em que momento o amor passou a ser rancor?
— Em momento algum. Catalina Branco só recebeu de mim amor sincero e proteção.
— Mas, o senhor a matou, de que forma acredita encaixar amor e proteção em seu crime?
— Matando-a, eu a protegi do mundo. Retirei-a do estrelato no auge. Quantas estrelas têm essa chance? Talvez ela pudesse fazer mais dois ou três grandiosos filmes — talvez muitos mais —, comover multidões com sua face divina, isso eu não posso negar, mas foi preciso terminar o começado.
— O senhor poderia ter deixado a verdadeira história de Catalina Branco oculta, evitando ofuscar parte de seu brilho. Por que resolveu compartilhar com os veículos de imprensa de todo o mundo os segredos de sua mais singular paciente?
— A morte de Catalina não saiu conforme meus planos. Fui fraco, pensei em desistir diversas vezes. Ela me suplicava com os olhos verdes que tinha, a boca delicadamente cerrada em um quase-sorriso. Parecia querer viver, parecia querer me amar novamente. Mas eu já não sabia diferenciar as verdadeiras emoções dela de sua elaborada arte de atuar. Em parte matei-a por ciúmes, confesso, mas como lhe disse, fiz tudo o que fiz por amá-la demais e por querer protegê-la. Compartilhar com o mundo sua verdadeira história foi a forma que encontrei de lhe conceder a liberdade. Ela que tinha se tornado uma escrava da perfeição, uma escrava de si mesma. Vista sem as máscaras Catalina Branco conquistou seu posto definitivo na constelação da fama, porque mesmo as mais nobres almas erram e mentem.
(Pausa).
— Doutor Mourão, agradeço gentilmente sua boa-vontade e paciência. Nossa entrevista termina aqui.
— Foi um prazer.